Navegamos num mar de enredos: mal a onda se esvai, logo outra vem entre limos, enigmas e segredos a que não escapa ninguém. Por mais absurdo que o caso seja, há sempre quem, por despeito ou inveja, lhe dê sequência e atenção para rapidamente o abandonar em troca do que tome o seu lugar na infindável sucessão. E assim vamos gastando os dias em novelos e ninharias.
 | Vendaval | Jan 23, '12 11:55 AM for everyone |
|  | Não é o corpo, não, que o corpo ainda responde ao que lhe pede o coração, mas uma dor tão funda que não finda e se faz de silêncio e solidão, como se andasse a alma desavinda do mundo que lhe coube, esta prisão de nervos, ossos, veias e tendões sujeita ao vendaval das emoções. |
Largo dos Duques de Cadaval, ao Rossio Nós falamos de amor, mas em verdade o amor não se explica, o amor é, mais do que carne, uma questão de fé, o indizível fluir da eternidade.
A pele contra a pele, a sequiosa boca buscando a água de outra boca e o mistério de tudo, a quase louca ânsia de entrega cega e luminosa.
Nós falamos de amor, mas não sabemos nada do amor, apenas tacteamos a superfície daquilo que amamos e logo abandonamos e esquecemos.
Vontade de partir, de largar tudo, de acordar amanhã num hotel em Veneza, de esquecer o passado, o futuro, o mundo e baralhar as cartas expostas na mesa.
Vontade de zarpar, de abandonar as mínimas coisas algum dia amadas e procurar no mapa das estradas o que teima em faltar.
Vontade de abalar sem um aceno sequer de despedida e de um modo expedito mas sereno recomeçar a vida.
 | Sem medo | Aug 16, '11 1:40 PM for everyone |
Nem a todas as horas a poesia é tinta azul sobre a tela da vida. Também as há em que a descolorida bruma das coisas se insinua fria na alma do poeta e a sombria memória se desvela corroída pelo vagar do tempo e compelida a semear a noite onde era dia.
Nessas horas de névoa e de veneno em que o quadro se torna mais escuro por reacção das cores combinadas
é quando mais importa ser sereno e olhar sem medo as luzes do futuro, tentando antecipar as madrugadas.
 | Há dias | Aug 1, '11 1:17 PM for everyone |
Praça das Flores Há dias em que o mundo parece ruir, o almoço aprazado não se concretiza, os telemóveis amigos estão desligados e ninguém responde, ninguém mostra sentir abertura a dar-nos a força precisa para continuarmos, saltando os valados que aparentam convites a desistir. É então que mais se impõe ter presente o menor de todos os muitos segredos que enfim nos permitem seguir em frente: viver é a arte de gerir os medos.
Jardim das Francesinhas Com a tua chegada devolveste à nossa vida um sentido que parecia perdido. E o mundo, que era inóspito e agreste, de súbito tornou-se novamente habitável, luminoso e doce. Porque o tempo consumido à tua espera é já tempo esquecido ante o florir da primavera, por mais rigoroso e duro que o Inverno tenha sido. E a partir de hoje só é permitido falar do futuro.
Vamos fazer de conta que foi tudo apenas fruto da nossa ilusão e o planeta rodou solene e mudo, alheio ao facto de sermos ou não tripulantes de um barco imaginário arrancado ao mar fundo e temerário.
Vamos fazer de conta que largámos de outra galáxia, outro continente, e ao acaso ancorámos algures num cais contra a corrente de ideias feitas, preconceitos, códigos, normas e preceitos.
Vamos fazer de conta que surgimos do nada para o nada desta hora e, olhando em volta, sem demora soubemos que afinal não existimos.
Olhei-te longamente e concluí que não poderia viver sem ti. Mas logo o medidor de ventos e marés me soprou ao ouvido a evidência de que tu, sendo tu, nem por isso és o espelho de absoluta transparência que te sonhei tanta vez.
No céu azul não raro surgem nuvens e é frequente a chuva vir perturbar o dia luminoso. Por isso não me inquieto e vou em frente, nesta certeza com que ouso continuar a olhar-te longamente.
Não me acomodo à ideia de ter só uma vida. Quero outra, a seguir, que venha cheia do que esta, avara e presumida, me negou e podia ter-me dado. Uma vida que seja realmente vida, sem complexos de culpa ou de pecado e, já agora, que não seja de usar e deitar fora. Uma vida, sei lá, que valha a pena e me dê ocasião de completar o que esta não deixou. Uma vida nem grande nem pequena, à medida do coração que sou.
Largo de Camões És tu que me embebedas, não o vinho que, embora bom, não chega a ter a graduação precisa, o odor certo do teu corpo sedento de carinho. És tu que me embebedas, no prazer de estar contigo, ter-te perto, e não me interessa achar maneira de me passar a bebedeira.
 | Maria | Apr 27, '11 12:48 PM for everyone |
Acrílico sobre tela / TL No cais do encantamento e da ternura, estamos todos à espera de ti, grácil e pura herança desta primavera. Porque tudo contigo recomeça, daí a nossa pressa de te ver chegar, ou não fosses a madrugada ardentemente desejada do futuro por achar.
Campo de papoilas Dizem que Deus não dorme, mas suponho que deve às vezes cochilar um pouco e num ápice o mundo semi-louco transforma em pesadelo o que era sonho. Só à luz do mistério, que não é da ordem natural e da razão mas pertença do espírito e da fé, pode alguém encontrar explicação para tanta desgraça que acontece sem aviso de tempo nem lugar a tanta gente que não a merece. Mas não estaria Deus a cochilar?
Jardim do Príncipe Real Amarrem a poesia, ponham-lhe algemas, peias, grades contra as mais amplas liberdades, como dantes se dizia. Fechem-na bem entre paredes e não a deixem navegar com seus barcos e redes. Imponham-lhe artes de marear, bússolas, regras e bandeiras ou mil e uma maneiras obrigatórias de voar. Vão ver como ela se liberta e na hora certa retoma o seu lugar.
Tejo meu
(No Dia da Poesia)
Vem pousar-me amiúde na janela um pássaro esquivo que tão depressa me interpela e me faz sentir vivo como veloz desaparece e de pronto me esquece.
Ave intrigante e vadia que ora me chama ora me foge dei-lhe o nome de poesia e tanto a celebro hoje como em qualquer outro dia.
 | Lisboa | Mar 2, '11 12:19 PM for everyone |
Ribeira das Naus Nada sabes de mim e no entanto eu amo-te pássaro inquieto e frágil que descansas sob a janela do meu tédio. Podia debruçar-me e súbito falar-te mas ignoro as palavras necessárias: estou aqui de passagem e não trago outra bagagem que não seja o espanto incrédulo de amar-te. E por mais que te afastes e eu fique apenas a contas com a dor do abandono sei que não vai ser fácil esquecer-te e ao cântico feliz de fim de tarde da tua comunhão com as gaivotas.
Gladíolo na varanda
Como se fosse um armazém, a memória retém o que algum dia se viveu mas também o que jamais extravasou os umbrais do sonho e só aconteceu na imaginação. Em tamanha confusão entre o vivido e o sonhado a gente às vezes nem sabe o que em bom rigor lhe cabe meter no rol do passado. Pois não raro, bem ou mal, é mais verdade o imaginado do que o real.
Entardecer lisboeta Nenhum dia é cinzento quando a tua voz me desperta e saio para a rua cheio de sol e música na alma e tudo em volta se ilumina e canta como se desprendesse da garganta uma canção vibrante, porém calma.
Nenhum dia é monótono a teu lado porque o tempo contigo se evapora, de ti serenamente enamorado, e não dura um minuto cada hora.
 | Perdição | Jan 26, '11 11:52 AM for everyone |
Rua da Quintinha
Como quem comete um crime e se busca em parte incerta fiz-me à cidade e perdi-me em qualquer rua deserta das muitas que tem o mapa. Mas em meio da perdição alguma coisa me escapa: é que não vejo razão para se ter por funesta a que em mim é condição mais que evidente de festa.
Gladíolo na varandaComo se fosse um armazém, a memória retém o que algum dia se viveu mas também o que jamais extravasou os umbrais do sonho e só aconteceu na imaginação. Em tamanha confusão entre o vivido e o sonhado a gente às vezes nem sabe o que em bom rigor lhe cabe meter no rol do passado. Pois não raro, bem ou mal, é mais verdade o imaginado do que o real.
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