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POESIA de Torquato da Luz


Blog EntryMay 1, '12 12:24 PM
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Navegamos num mar de enredos:
mal a onda se esvai, logo outra vem
entre limos, enigmas e segredos
a que não escapa ninguém.
Por mais absurdo que o caso seja,
há sempre quem, por despeito ou inveja,
lhe dê sequência e atenção
para rapidamente o abandonar
em troca do que tome o seu lugar
na infindável sucessão.
E assim vamos gastando os dias
em novelos e ninharias.

Photo AlbumVendavalJan 23, '12 11:55 AM
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Não é o corpo, não, que o corpo ainda
responde ao que lhe pede o coração,
mas uma dor tão funda que não finda
e se faz de silêncio e solidão,
como se andasse a alma desavinda
do mundo que lhe coube, esta prisão
de nervos, ossos, veias e tendões
sujeita ao vendaval das emoções.

Blog EntryOct 10, '11 11:40 AM
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Largo dos Duques de Cadaval, ao Rossio
 
Nós falamos de amor, mas em verdade
o amor não se explica, o amor é,
mais do que carne, uma questão de fé,
o indizível fluir da eternidade.

A pele contra a pele, a sequiosa
boca buscando a água de outra boca
e o mistério de tudo, a quase louca
ânsia de entrega cega e luminosa.

Nós falamos de amor, mas não sabemos
nada do amor, apenas tacteamos
a superfície daquilo que amamos
e logo abandonamos e esquecemos.

Blog EntrySep 22, '11 1:02 PM
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Estação do Sul e Sueste
Vontade de partir, de largar tudo,
de acordar amanhã num hotel em Veneza,
de esquecer o passado, o futuro, o mundo
e baralhar as cartas expostas na mesa.

Vontade de zarpar, de abandonar
as mínimas coisas algum dia amadas
e procurar no mapa das estradas
o que teima em faltar.

Vontade de abalar sem um aceno
sequer de despedida
e de um modo expedito mas sereno
recomeçar a vida.

Blog EntryAug 16, '11 1:40 PM
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Nem a todas as horas a poesia
é tinta azul sobre a tela da vida.
Também as há em que a descolorida
bruma das coisas se insinua fria
 
na alma do poeta e a sombria
memória se desvela corroída
pelo vagar do tempo e compelida
a semear a noite onde era dia.

Nessas horas de névoa e de veneno
em que o quadro se torna mais escuro
por reacção das cores combinadas

é quando mais importa ser sereno
e olhar sem medo as luzes do futuro,
tentando antecipar as madrugadas.

Blog EntryAug 1, '11 1:17 PM
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Praça das Flores
Há dias em que o mundo parece ruir,
o almoço aprazado não se concretiza,
os telemóveis amigos estão desligados
e ninguém responde, ninguém mostra sentir
abertura a dar-nos a força precisa
para continuarmos, saltando os valados
que aparentam convites a desistir.
É então que mais se impõe ter presente
o menor de todos os muitos segredos
que enfim nos permitem seguir em frente:
viver é a arte de gerir os medos.

Blog EntryJul 14, '11 8:55 AM
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Jardim das Francesinhas
Com a tua chegada devolveste
à nossa vida um sentido
que parecia perdido.
E o mundo, que era inóspito e agreste,
de súbito tornou-se
novamente habitável, luminoso e doce.
Porque o tempo consumido
à tua espera
é já tempo esquecido
ante o florir da primavera,
por mais rigoroso e duro
que o Inverno tenha sido.
E a partir de hoje só é permitido
falar do futuro.

Blog EntryJun 30, '11 12:18 PM
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Rossio
Vamos fazer de conta que foi tudo
apenas fruto da nossa ilusão
e o planeta rodou solene e mudo,
alheio ao facto de sermos ou não
tripulantes de um barco imaginário
arrancado ao mar fundo e temerário.

Vamos fazer de conta que largámos
de outra galáxia, outro continente,
e ao acaso ancorámos
algures num cais contra a corrente
de ideias feitas, preconceitos,
códigos, normas e preceitos.

Vamos fazer de conta que surgimos
do nada para o nada desta hora
e, olhando em volta, sem demora
soubemos que afinal não existimos.

Blog EntryJun 23, '11 2:11 PM
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Largo do Carmo
Olhei-te longamente e concluí
que não poderia viver sem ti.
Mas logo o medidor de ventos e marés
me soprou ao ouvido a evidência
de que tu, sendo tu, nem por isso és
o espelho de absoluta transparência
que te sonhei tanta vez.

No céu azul não raro surgem nuvens
e é frequente a chuva
vir perturbar o dia luminoso.
Por isso não me inquieto e vou em frente,
nesta certeza com que ouso
continuar a olhar-te longamente.

Blog EntryJun 14, '11 1:11 PM
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Mar meu
Não me acomodo à ideia
de ter só uma vida.
Quero outra, a seguir, que venha cheia
do que esta, avara e presumida,
me negou e podia ter-me dado.
Uma vida que seja realmente vida,
sem complexos de culpa ou de pecado
e, já agora,
que não seja de usar e deitar fora.
Uma vida, sei lá, que valha a pena
e me dê ocasião
de completar o que esta não deixou.
Uma vida nem grande nem pequena,
à medida do coração
que sou.

Blog EntryMay 23, '11 1:48 PM
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Largo de Camões
 
És tu que me embebedas, não o vinho
que, embora bom, não chega a ter
a graduação precisa, o odor certo
do teu corpo sedento de carinho.
És tu que me embebedas, no prazer
de estar contigo, ter-te perto,
e não me interessa achar maneira
de me passar a bebedeira.

Blog EntryApr 27, '11 12:48 PM
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Acrílico sobre tela / TL
No cais do encantamento e da ternura,
estamos todos à espera
de ti, grácil e pura
herança desta primavera.
Porque tudo contigo recomeça,
daí a nossa pressa
de te ver chegar,
ou não fosses a madrugada
ardentemente desejada
do futuro por achar.

Blog EntryApr 13, '11 1:29 PM
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Campo de papoilas
Dizem que Deus não dorme, mas suponho
que deve às vezes cochilar um pouco
e num ápice o mundo semi-louco
transforma em pesadelo o que era sonho.
Só à luz do mistério, que não é
da ordem natural e da razão
mas pertença do espírito e da fé,
pode alguém encontrar explicação
para tanta desgraça que acontece
sem aviso de tempo nem lugar
a tanta gente que não a merece.
Mas não estaria Deus a cochilar?

Blog EntryMar 28, '11 12:23 PM
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Jardim do Príncipe Real
Amarrem a poesia,
ponham-lhe algemas, peias, grades
contra as mais amplas liberdades,
como dantes se dizia.
Fechem-na bem entre paredes
e não a deixem navegar
com seus barcos e redes.
Imponham-lhe artes de marear,
bússolas, regras e bandeiras
ou mil e uma maneiras
obrigatórias de voar.
Vão ver como ela se liberta
e na hora certa
retoma o seu lugar.

Blog EntryMar 21, '11 1:11 PM
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Tejo meu

(No Dia da Poesia)

Vem pousar-me amiúde na janela
um pássaro esquivo
que tão depressa me interpela
e me faz sentir vivo
como veloz desaparece
e de pronto me esquece.

Ave intrigante e vadia
que ora me chama ora me foge
dei-lhe o nome de poesia
e tanto a celebro hoje
como em qualquer outro dia.

Blog EntryMar 2, '11 12:19 PM
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Ribeira das Naus
 
Nada sabes de mim e no entanto eu amo-te
pássaro inquieto e frágil que descansas
sob a janela do meu tédio.
Podia debruçar-me e súbito falar-te
mas ignoro as palavras necessárias:
estou aqui de passagem e não trago
outra bagagem que não seja o espanto
incrédulo de amar-te.
E por mais que te afastes e eu fique apenas
a contas com a dor do abandono
sei que não vai ser fácil esquecer-te
e ao cântico feliz de fim de tarde
da tua comunhão com as gaivotas.

Blog EntryFeb 17, '11 12:29 PM
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 Gladíolo na varanda

Como se fosse um armazém,
a memória retém
o que algum dia se viveu
mas também o que jamais
extravasou os umbrais
do sonho e só aconteceu
na imaginação.
Em tamanha confusão
entre o vivido e o sonhado
a gente às vezes nem sabe
o que em bom rigor lhe cabe
meter no rol do passado.
Pois não raro, bem ou mal,
é mais verdade o imaginado
do que o real.

Blog EntryFeb 5, '11 12:04 PM
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Entardecer lisboeta
 
Nenhum dia é cinzento quando a tua
voz me desperta e saio para a rua
cheio de sol e música na alma
e tudo em volta se ilumina e canta
como se desprendesse da garganta
uma canção vibrante, porém calma.

Nenhum dia é monótono a teu lado
porque o tempo contigo se evapora,
de ti serenamente enamorado,
e não dura um minuto cada hora.

Blog EntryJan 26, '11 11:52 AM
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Rua da Quintinha

Como quem comete um crime
e se busca em parte incerta
fiz-me à cidade e perdi-me
em qualquer rua deserta
das muitas que tem o mapa.
Mas em meio da perdição
alguma coisa me escapa:
é que não vejo razão
para se ter por funesta
a que em mim é condição
mais que evidente de festa.

Blog EntryJan 16, '11 1:53 PM
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 Gladíolo na varanda

Como se fosse um armazém,
a memória retém
o que algum dia se viveu
mas também o que jamais
extravasou os umbrais
do sonho e só aconteceu
na imaginação.
Em tamanha confusão
entre o vivido e o sonhado
a gente às vezes nem sabe
o que em bom rigor lhe cabe
meter no rol do passado.
Pois não raro, bem ou mal,
é mais verdade o imaginado
do que o real.